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quinta-feira, 14 de outubro de 2010

DIR-SE-IA DE REPENTE

DIR-SE-IA DE REPENTE

Dir-se-ia de repente
O horizonte é mais vasto e generoso

O coração repousa
Um pouco

Distende as asas
Mas sem levantar voo


Alberto de Lacerda

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

OUTROS SONS

OUTROS SONS

Já não peço o ardor extasiado
Da luz por dentro das horas mortas
Aprendi onde vivem os pássaros
Já parti de propósito as portas

Já não sei regressar como dantes
Já não choro o que perco Já ouço
Outros sons para além da amurada
Morreu o navio E eu que era moço


Alberto Lacerda

EMBORA O SOL...


EMBORA O SOL...

Embora o sol já não brilhe
embora a luz desfaleça,
a tarde finda me vai,
pela face,
numa lágrima,
caindo.


As flores lembranças são
de um tempo já bem antigo
em que o Jardim era alma,
e essa alma,
meu amor,
era eu.

Mas agora estou cansado,
ó imaginária presença,!
de esperar a tua vinda...
...agora é tarde,
não venhas:
é o fim...


Alberto Lacerda

PONTA DA ILHA

PONTA DA ILHA

Ó corpos dados com melodia
As melodias do meu ardor!
Ó pretas lindas! Ponta da Ilha!
Vestem soberbos panos de cor.
Deles se despem com grã doçura,
Vénus despida no próprio mar.
É com doçura que negras, lindas,
Desaparecem no meu calor.

Alberto de Lacerda

EXÍLIO

EXÍLIO

O exílio é isto e nada mais
Na sua forma mais perfeita:
Hoje na terra de meus pais
Somente a luz não é suspeita


Alberto Lacerda

CANTO PORQUE...

CANTO PORQUE...

Canto porque a poesia
quis falar uma vez mais.
Canto porque a alegria
é uma das horas desiguais.
Canto porque a multidão
existe apenas na voz
que se ouve na solidão.
Canto porque as palavras
passaram cegas à espera
da luz da minha canção.

Alberto de Lacerda

JÓIAS

JÓIAS

Jóias que imensa madrugada
De estrelas na ilha alegre
Do riquechó contemplo as conchas
Celestes a cintilar
São conchas algas são prodígios
Do mar que os deuses cravejaram
Assimetricamente musicalmente no firmamento

Alberto de Lacerda

FALEMOS DE MIOSÓTIS

FALEMOS DE MIOSÓTIS

Visto que Você não quer que as coisas continuem
Assim
Nesse caso
Falemos de miosótis
Flor sobre a qual não sabemos
Nada


Alberto de Lacerda

NÃO ENCONTRASTE A RUA


NÃO ENCONTRASTE A RUA

Não encontraste a rua
Não encontraste a casa
Não encontraste a mesa
No café que alguém
Por engano indicou.

Mas a cidade é esta
E não outra

Não encontraste o rosto

O anel caiu
Ninguém sabe aonde.


Alberto de Lacerda

ILHA DE MOÇAMBIQUE

ILHA DE MOÇAMBIQUE

 Desfeitos um por um os nós sombrios,
Anulada a distancia entre o desejo
E o sonho coincidente como um beijo,
Exalei mapas que exalaram rios.

 Terra secreta, continentes frios,
Ardei à luz dum sol que é rumorejo
Para lá do que eu sou, do que eu invejo
Aos elementos, aos altos navios!

Trouxe de longe o palácio sepulto,
A cobra semimorta, a bandarilha,
E esqueci poços, prossegui oculto.

Desdém que envolve por completo a quilha,
Sou bem o rei saudoso do seu vulto,
Vulto que existe infante numa ilha.

Alberto de Lacerda

Acredito que...

“... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"