Aurelio Arteta (Espana)
Madruga. E água vos desnuda alegres
por dentro dos espelhos. Repentinas
partis. E a superfície exerce
profundidade. E salpicais os dias
de movimento, súbito nem leve,
mas pura luz ao longo da retina.
E enquanto sobem músculos ou descem,
visível ave rítmica respira,
regressa, vai, ou cega. Tão verdade
que um fundo de água a apaga. E as esquinas
são anúncios antigos de cidade
pensando-se na noite, que dominas,
real como quem tem só idade
e, de repente, o azul é meio dia.
Fernando Echevarría
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segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
VINHAM ROSAS NA BRUMA FLORESCIDA
The New Monet, Rose Hips and Healing Plants
Vinham rosas na bruma florescida
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.
Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.
Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.
E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
embruma a brisa em que se aviva a rosa.
Fernando Echevarría
Vinham rosas na bruma florescida
rodear no teu nome a sua ausência.
E a si se coroavam, e tingiam
a apenas sombra de sua transparência.
Coroavam-se a si. Ou no teu nome
a mágoa que vestiam madrugava
até que a bruma dissipasse o bosque
e ambos surgissem só lugar de mágoa.
Mágoa não de antes ou de depois. Presente
sempre actual de cada bruma ou rosa,
relativos ou não no espelho ausente.
E ausente só porque, se não repousa,
é nome rodopio que, na mente,
embruma a brisa em que se aviva a rosa.
Fernando Echevarría
VÉNUS
Cabanel, The Birth of Venus
Sublevava-se no verbo uma brancura
onde sucumbem subtis
trampolins de alvaiade com que a espuma
se exalta na penumbra e nos quadris.
E impugna o púbis. O assusta quase
no aperto da sua timidez
batida pelo mar feliz da frase
que se ergue do triunfo do que fez
com Vénus firme a resistir ao meio
da onda aonde se debate a trança.
E onde o desafio do seu seio
emerge, enquanto o justo ritmo avança
na só brancura duma espuma escrita
que ambas instrui e que uma só visita.
Fernando Echevarría
Sublevava-se no verbo uma brancura
onde sucumbem subtis
trampolins de alvaiade com que a espuma
se exalta na penumbra e nos quadris.
E impugna o púbis. O assusta quase
no aperto da sua timidez
batida pelo mar feliz da frase
que se ergue do triunfo do que fez
com Vénus firme a resistir ao meio
da onda aonde se debate a trança.
E onde o desafio do seu seio
emerge, enquanto o justo ritmo avança
na só brancura duma espuma escrita
que ambas instrui e que uma só visita.
Fernando Echevarría
É DOCE ENVELHECER
É doce envelhecer quando o que avança é ir recrudescendo a inteligência. Entra-lhe o mundo no vagar. Decanta o seu volume inteiro de contenda. Transporta-se. E entrega na palavra a inteligível criação. Entrega o desenvolvimento. O pulso. A trama que ajustam sua refundação aberta. E a doçura de se ir vendo alarga o envelhecimento a quase ciência. Uma ciência onde o enigma é alma. E onde o mundo contunde. Insiste. E pesa.
Fernando Echevarría
A CHUVA CONJUGOU-SE COM O VENTO
Chegou o inverno à sua luz de chuva.
Estoirou-a fina. Adelgaçou-lhe o vento
de forma à transparência vir à súbita
ampliação de um tempo
propício ao estudo. E a quem ausculta
o imo do que vai aparecendo.
Ou que se entrega à paciência arguta
da nostalgia. Do inverno
e desse especular ritmo que puxa
o em si de cada coisa para o lugar de o vermos
Fernando Echevarría
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Acredito que...
“... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"




