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domingo, 17 de outubro de 2010

Legado


Legado

Deixarei por herança
não o poema
mas o corpo no poema
aberto aos quatro ventos

Pois todo poema
é verde e maduro,
em areia movediça
de angústia, solidão
Onde me debato
ainda que finja o contrário
em busca da verdade
e seu chão

Deixarei por herança
não o poema
Mas o corpo repartido
na viagem inconclusa

Pois todo o poema maduro
é um verde poema
E, mesmo acabado,
se estriba na inconclusão
Claro, sem esquecer,
o estratagema da paixão

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

DESTERRO


DESTERRO

I

Aqui estou
Em pleno século XX
Desterrado por Platão.
Dentro do círculo da vida
Nõa mais aberto
Que um não.


Que faço neste tempo
Entre terra e céu de ironia?
Em coração caracol
E tempo de uvas verdes?

Faço um poema.
Me desfaço.
Me desfaço como um laço
De uma caixa de presentes vazia.

Enquanto me desfaço no poema
Afino o sentimento do mundo:
Desterro se faz de nenhum lugar.
E só se faz de saudade.

Lindolf Bell

É noite em teu jardim, Mãe...


É noite em teu jardim, Mãe...


Pouca memória.
Tão clara e doída tanta.
Foi recente.
Mas tanto tempo faz que se foi.

Partiu em manhã de chuva.
Minha mãe partiu.
O único momento em que não se repartiu.
A sua morte não repartiu.

Disse um dia:
viver é um jardim precário.
Mas vejo no meu jardim
a eternidade do jasmim.
Porque é belo e eterno.
E porque é belo o jardim.

Sim! O dia amanhece.
Todos os dias.
Por trás dos montes
que vejo de teu jardim.

E toda manhã
o vizinho passa em frente da casa
e não te acena mais.
nunca mais.

Acena para o jardim vazio,
por hábito, medo da morte, espanto.
E pela luz do dia
que ainda freme
de teu canto.

E mesmo assim
é noite em teu jardim.
Por mais que amanheça,
por mais que amanheça.

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

Primeira Raiz


Primeira Raiz

Ancestral não direi:
antes cesto de tudo,
antes tempo em que mudo:
pêlo,pele,sobretudo.

Ancestral direi:
se memória não fosse mais
( e é tudo)
que o risco na cerâmica quebrada,
o nome dentro da pedra achada,
e o amor, esta breve palavra,
em milagre de nada.

Ancestral , sim,
porque o que passou, passa, passará,
não passa de matiz, matriz, da manhã.
E dúvida ancestral
não é mais que fogo, afago, cinza.
E tudo que penso
pouco mais dura que a escrita,
a da raiz, a da marca do pé na terra,
que mino, rumino,
e que me habita.

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

Ouvi a Morte Passar


Ouvi a Morte Passar

Ouvi a morte passar.
Senti seu hálito
e seu silêncio.
Senti a morte
em seu movimento de centopéia,
aura de seda
e horror.

Toda morte
é equívoco.

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

Timboema


Timboema

alusões ilusões
compõe-se o poema
de preferências secretas
fortuitos senões

frágil argila
amor e devaneio
se antes do tempo se vai
antes do tempo veio

em algum lugar da indiferença
em província de coisas breves
nada sei senão de ti

em última instância
finjo sonhos circunstâncias
me bifurco aqui

Lindolfo Bell

CARTA DE NATAL


CARTA DE NATAL

A mesa ideal sonhei
feita de paz real, leal
não a paz impossível dos acordos
escritos,
a mesa rara e comum ao mesmo tempo
e feita sem desconfiança
de tréguas passageiras entre irmãos,
primos, grupos familiares
e vizinhos
na disputa sutil, réptil
em secretos acordos sobre a liberdade.

Lindolfo Bell

ASA DA PRIMEIRA IDADE


ASA DA PRIMEIRA IDADE

Longe de mim
Como a mais distante estrela.
Próxima de mim
Em meus olhos (e coração)
Que me permitem vê-la.

Pouco sobra da vaidade,
Da divisão dos tempos,
Da distribuição de afetos.

Ensina-me sobra, sombra, terra,
Aonde me perdi.
Ensina-me do orvalho
Que umedece o sonho de perfeição
Que não esqueci.

A minha aldeia chama-se:
Ninho de liberdade.
Mas onde terá ficado a asa
Da primeira idade?

Lindolf Bell

VIII


VIII

Soubeste amar-me
como se eu fosse da tua lavra.
Olvidaste, porém, na obra,
a lucidez para discernir.
Em solidão, eu sei, há que lavrar.
O tempo de erguer os braços
levanta, de súbito, no coração,
e necessária é a praça limpa,
feita um vasto campo
para o amor medrar.

Lindolf Bell
In ‘Incorporação’

POEMA ÀQUILO QUE PERDI


POEMA ÀQUILO QUE PERDI

Entre dois lugares julguei achar-te.
No terceiro estavas longe.

Perdi meus olhos numa vitrina.
Por isso não choro não mais.

Minhas mãos perdi-as também.
Já não recordo aonde.
Os anos puseram-me nocaute.

E a alma não encontro.
Vou habitar os campos verdes.

Lindolfo Bell
In ‘Incorporação’

Poema a uma patriota


Poema a uma patriota

Um dia,
ao meio dia,
o exército veio
com o sorriso das grandes marchas veio,
postou-se à porta da tua morada

Levou a flor,
a folha,
o filho
Até hoje continuas
à porta de tua morada.

Lindol Bell
In ‘Incorporações’

A Magnólia


A Magnólia

Na noite a magnólia
no ramo a magnólia,
no jardim no ramo
a magnólia, a branca,
a chegada, a aconchegada
na noite, a magnólia
na rama do ramo, calma,
magnólia, doce óleo
na noite sem data, a magnólia
arde na noite sem data, a magnólia
brilha no pouso na noite,
na florescência de estar ali,
sem alarme, amarrada ao ramo,
a magnólia plena como um olho
aberto ou fechado ou derramado,
a magnólia na véspera, vespertina,
a magnólia no tempo.

Lindolf Bell
In ‘Incorporações’

Poema Matemático


Poema Matemático

Me somo.
E fico um.

Me multiplico.
E permaneço um.

Me divido.
E continuo um.

Me diminuo.
E resto um.

Me escrevo.
E sou nenhum.

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

Espelho II


Espelho II


O espelho sujo
deforma a imagem: do rosto.
Não o rosto
diante do espelho.

Porque o espelho dentro do rosto
é inimigo apropriado.
Eterno e breve.
Transcende a convivência consigo mesmo
e o tempo marcado.

O espelho dentro do rosto
como o rosto espesso, diverso, esparso,
estúpido, estranho,

é estrune do tempo
e ouro da morte.

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

Espelho I


Espelho I

O espelho:
na conquista da máscara definitiva
no prelúdio da morte capturada

O espelho, este
labirinto de Greta. Este
dédalo de meandros.
Esta verdade nua
e crua. Esta vertigem,
este hieróglifo de luz.

Ah! então é isso!
O espelho
é onde o pássaro do tempo pousa.
Se reflete,
se debate ferido, aferido.

E deflagra a morte provável.

Lindolf Bell

XVIII


XVIII

Eu vejo animais
nas nuvens que se movem.
Nos muros das casas vejo flores
do tempo móvel feitas.

Estas flores nascem das indiferenças
- estas semprevivas escondidas nas palavras.
Vêm debaixo da terra
e da planta dos pés do homem.
E do nó vivo no peito
feito de humilhação e fome.

Eu vejo animais nas nuvens.
Eu vejo animenos nas navens.

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

XVII


XVII

Do reino da indiferença
nada sei
Também não visto
a roupa das diferenças

Na proximidade, sim,
encontro chão
Retiro pão,
sol da manhã
partilho,
na ceia
da iniciação

Lindolfo Bell
In ‘Código das Águas’

XV


XV

Se não for sonho
não vale a pena viver
Pois de sonho em sonho
aprende-se a ser

Nada mais
que o sonho,
perguntareis?

Nada mais simples
para prender-me

Nada mais simples
para perder-me

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

XIII


XIII

Os cadeados
que o tempo carrega
carrego dentro de mim.

Rosa
Rosaestrela
Ilhailhada
Floremflor

O tempo é curto
O tempo é certo

Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

Pois menor que meu sonho


VI


Atravesso compêndios,
currículos, apostilas
de silêncio
e minha sombra pisada
por outra sombra
também feita de tudo
e nada
Atravesso simulacros
e arranco o lacre da palavra

Pois menor que meu sonho
não posso ser

atravesso o avesso
E meu barco de travessias
é a palavra terra
cercada de água por todos os lados

Pois menor que meu sonho
não posso ser

Estou do lado de lá da ilha
Aqui disponho de mim
e conheço meu próprio acesso
Aqui conheço a face inversa da luz
onde me extravio
e não cessarei jamais

Pois menor que meu sonho
não posso ser.


Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’


Lindolf Bell
In ‘Código das Águas’

Acredito que...

“... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"