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terça-feira, 26 de outubro de 2010
SONO
Há, por tudo, um silêncio absorto;
já não brincam mais as pétalas
que o vento deixou cair.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
SAUDADE
Ó!
o lírio branco se tingiu de roxo
ao som da valsa da melancolia.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
GLÓRIA
Veio a chuva e lavou aquela poça de sangue,
mas a idéia hoje vive na alegria de todos.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
ANGÚSTIA
O sol se foi embora e a lagoa esquecida
se voltou para dentro de si mesma.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
A FÁBULA DO POETA
O relógio ficou parado no ar!
Pisam o sono. Quem quer vê-lo? É o vento
que entra descalço, vem para apagar
a impressão digital do sofrimento.
Tão branco assim, ele concentra todo
frio da noite em cada cartilagem;
não! dêem-lhe um banho de manhãs e iodo
para que possa continuar a viagem.
De que ele agora é livre, ó Dor, convence-o!
não sente mais o peso do Infinito,
é todo som e pensamento – voando.
Seu corpo nu, molhado de silêncio,
deixou impresso na parede o grito;
a cabeça há de estar (no céu) cantando.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1960
c
ESTERILIDADE
As pálpebras imóveis
não vêem a brisa dormindo
ao lado das folhas secas.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
2. SONETO DA ESPERA INÚTIL
No outro lado de mim mora a criança,
neste lado onde estou é noite fria:
-lancei mão dos pincéis da fantasia
para tornar real minha esperança,
pintar meu ser com as cores da alegria;
então achei a minha semelhança
no menino que fui, não na lembrança
do mundo que perdi e onde vivia.
Se o sonho andei, cruzei meu labirinto
na modelagem abstrata do poema,
virgens manhãs bebi no extinto lago;
e a dor que não senti agora sinto
na amarga solidão, no amargo tema
em que ontem naveguei e hoje naufrago.
Colombo de Sousa
In: Antologia Poética
1.SONETO DA ESPERA INÚTIL
O menino de outrora, renascido
em mim e no que sou, tornou-se o estranho
que se perdeu no fundo do tamanho,
que emudeceu no oráculo esquecido;
tal o destino que eu achei no olvido:
-rios de lua onde a brincar me banho,
onde há um pastor que tange seu rebanho
de nuvens, em meu sonho interrompido.
Sempre distante do que fui, carrego
o inferno e o céu dos íntimos momentos,
tateando pelo mundo igual a um cego.
E assim, se ao meu destino me abandono,
flutuo a noite imemorial dos ventos
-noite embriagada em caminhos de sono.
Colombo de Sousa
In: Antologia Poética
PARÁBOLA
Quando tudo cessou e o céu tornou-se azul
a rosa encheu o céu com o incenso da corola.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
MELANCOLIA
Barcos imóveis sabre um mar gelado,
não há sol nem luar?
E a voz incolor ficou parada no ar.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
O ANÚNCIO DO POEMA
A minha dor além de mim me espera,
emboscada na curva do caminho;
tem encantos de rosa, sendo o espinho
que meu corpo e minh’alma dilacera;
talvez quando chegar a primavera
a dor invente o amor, pinte um carinho,
transformando o refúgio onde me aninho
no castelo encantado da quimera;
e a dor navega o mar onde navego
por terra e gente, madrugada e noite,
sempre comigo; a minha dor carrego
para animar o mundo que componho
e ver liberto do alçapão da noite
(já feito poema) o pássaro do sonho.
Colombo de Sousa
In: Antologia Poética
CREPÚSCULO
-Estrelas não!
Pedaços de almas tristes
Que a noite acende pra enfeitar o céu.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
Pedaços de almas tristes
Que a noite acende pra enfeitar o céu.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
ARGUMENTO INICIAL
A Verdade existe. Como encontrá-la?
No gesto azul das flores? – Entretanto,
a flor é a alma que perdeu o encanto
e dorme. Só o amor há de acordá-la.
Por que a Verdade não se diz no canto
do pássaro? – Ninguém lhe entende a fala;
se ela se desse a quem tenta alcançá-la,
seria um corpo que despiu o manto,
Estágio
não a Verdade há tanto desejada.
Seu gesto incontrolável, todavia,
começa em nós e está no outro hemisfério,
no fundo da manhã carbonizada.
Tudo em vão. Nenhum “sézamo” abriria
as portas imantadas do mistério.
Colombo de Sousa
FUGA
Era noite e o céu estava em mim.
Quando olhei para dentro de mim mesmo
-só vi o rasto de meu próprio espírito,
só ouvi o eco de meus passos perdidos. . .
Aonde fui que não me lembro?
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
Quando olhei para dentro de mim mesmo
-só vi o rasto de meu próprio espírito,
só ouvi o eco de meus passos perdidos. . .
Aonde fui que não me lembro?
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
SONETO
SONETO
Era preciso que um de nós partisse,
pois nosso amor perdeu o encanto, a graça;
talvez, se morto está, nunca renasça,
nem nunca mais te diga o que te disse.
Ébrios de amor, esgotamos a taça,
sem crer que tanto amor se consumisse.
E como, enfim, mais nada nos unisse,
desmanchou-se o castelo de fumaça.
Depois o adeus – tão rápido, indeciso –
deu-me a impressão de termos sido expulsos
do encantado jardim do Paraíso. . .
Foste, eu fiquei. E aqui, ainda desejo
aos grilhões desse amor prender meus pulsos,
beijar de novo teu primeiro beijo.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
Era preciso que um de nós partisse,
pois nosso amor perdeu o encanto, a graça;
talvez, se morto está, nunca renasça,
nem nunca mais te diga o que te disse.
Ébrios de amor, esgotamos a taça,
sem crer que tanto amor se consumisse.
E como, enfim, mais nada nos unisse,
desmanchou-se o castelo de fumaça.
Depois o adeus – tão rápido, indeciso –
deu-me a impressão de termos sido expulsos
do encantado jardim do Paraíso. . .
Foste, eu fiquei. E aqui, ainda desejo
aos grilhões desse amor prender meus pulsos,
beijar de novo teu primeiro beijo.
Colombo de Sousa
In: Estágio 1964
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Acredito que...
“... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"














