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segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Improviso à janela




Este é o começo do dia,
como o começo e o fim do mundo:
as nuvens aprendem a voar,
os campos vão sonhando nuvens,
o vento vai sonhando o pó
onde tristemente o amor palpitará.

Este é o começo do dia.
Vemos tudo o que já foi visto,
alguma coisa não mais se verá.


Nem sempre olhamos o dia
tão face a face e tão docemente.
Nem sempre sentimos esta saudade,
ainda ausente, ainda futura,
do que há e do que não há.

Este é o começo do dia:
- do céu, da luz, da terra, dos homens,
que acontecerá?

1954


Cecília Meireles

PEQUENA CANÇÃO



Pássaro da lua,
que queres cantar,
nessa terra tua,
sem flor e sem mar?

Nem osso de ouvido
Pela terra tua.
Teu canto é perdido,
pássaro da lua...

Pássaro da lua,
por que estás aqui?
Nem a canção tua
precisa de ti!


Cecília Meireles

Chuva




Sobre as casas fechadas, a chuva.
Sobre o sono dos homens, a chuva.
Sobre os mortos inúmeros, a chuva.

A chuva noturna sobre as arvores.
A chuva noturna sobre os templos
A chuva noturna sobre o mar.

Sobre a solidão deste mundo, a chuva.
A solidão da chuva, na solidão.


Abril, 1954



Cecília Meireles

Canção Mínima




No mistério do sem-fim
equilibra-se um planeta.

E, no planeta, um jardim,
e, no jardim, um canteiro;
no canteiro uma violeta,
e, sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o sem-fim,
a asa de uma borboleta.

Cecília Meireles

Supérfluo



A chuva coloca no bico dos pássaros
um guizo d’água.

A tarde levanta da verde folhagem
uma espuma de aroma.

Uma vida, quase a teus pés, dirige-te
um terno pensamento.

Oh, as pequenas coisas supérfluas
extraviadas no mundo.

Quem ouve? quem vê? quem entende?


Cecília Meireles

Sobre a floresta verde



Sobre a floresta verde,
as casas brancas.
Ao longo das ruas barrentas,
os muros brancos.
Ah! como voam brancos
os pombos entre o céu e a terra!
Na terra, os jardins de jasmins brancos,
no céu, as nuvens que sobem,
tão brancas!


Fevereiro, 1957



Cecília Meireles

Até quando terás, minha alma, esta doçura




Até quando terás, minha alma, esta doçura,
este dom de sofrer, este poder de amar,
a força de estar sempre – insegura – segura
como a flecha que segue a trajetória obscura,
fiel ao seu movimento, exata em seu lugar...?


Fevereiro, 1955

Cecília Meireles

Canção


Se te abaixasses, montanha,
poderia ver a mão
daquele que não me fala
e a quem meus suspiros vão.

Se te abaixasses, montanha,
poderia ver a face
daquele que se soubesse
deste amor talvez chorasse.

Se te abaixasses, montanha,
poderia descansar.
Mas não te abaixes, que eu quero
lembrar, sofrer, esperar.

Novembro, 1947



Cecília Meireles


Alto, onde a poeira quase não alcança,
Ei-la tecendo a sua frágil teia;
Passa e repassa em torno e não se cansa,
Não se detém, não erra, não tonteia.

Por isso também eis que, sem tardança,
Pronta, a urdidura esplendida pompéia;
E é quando a aranha rutila descansa
No esplendor de seda que a rodeia.

O sol voluptuoso e ardente incide
Na trama, em cujo centro o aracnide
Como um fulvo topázio resplandece.


E eu penso que é filósofa esta aranha,
E, trânsfuga do mundo, se emaranha
No sonho sutilíssimo que tece.

21 de janeiro de 1918



Cecília Meirelesc

Pequena canção da onda




Os peixes de prata ficaram perdidos,
com as velas e os remos, nomeio do mar.
A areia chamava, de longe, de longe,
ouvia-se a areia chamar e chorar!

A areia tem rosto de musica
e o resto é tudo luar!

Por ventos contrários, em noite sem luzes,
do meio do oceano deixei-me rolar!
Meu corpo sonhava coma areia, com a areia,
desprendi-me do mundo do mar!


Mas o vento deu na areia.
A areia é de desmanchar.
Morro por seguir meu sonho,
longe do reino do mar!



Cecília Meireles

Mar em redor




Meus ouvidos estão como as conchas sonoras:
musica perdida no meu pensamento,
na espuma da vida, na areia das horas...

Esqueceste a sombra do vento
Por isso, ficaste e partiste,
e há finos deltas de felicidade
abrindo os braços num oceano triste.


Soltei meus anéis nos aléns da saudade.
Entre algas e peixes vou flutuando a noite inteira.
Almas de todos os afogados
chamam para diversos lados
esta singular companheira.



Cecília Meireles

MODINHA



Tuas palavras antigas
deixei-as todas, deixei-as,
junto com as minhas cantigas,
desenhadas nas areias.

Tantos sóis e tantas luas
brilharam sobre essas linhas,
das cantigas — que eram tuas —
das palavras — que eram minhas!

O mar, de língua sonora,
sabe o presente e o passado.
Canta o que é meu, vai-se embora:
que o resto é pouco e apagado.


Cecília Meireles

FIO




No fio da respiração,
rola a minha vida monótona,
rola o peso do meu coração.

Tu não vês o jogo perdendo-se
como as palavras de uma canção.

Passas longe, entre nuvens rápidas,
com tantas estrelas na mão...

- Para que serve o fio trêmulo
em que rola o meu coração?

Cecília Meireles

Quadras



Passarinho ambicioso
faz nuvens o seu ninho.
Quando as nuvens forem chuva,
pobre de ti, passarinho.

***

Os remos batem nas águas:
tem de ferir, para andar.
As águas vão consentindo -
esse é o destino do mar.

***

Na canção que vai ficando
já não vai ficando nada:
é menos do que o perfume
de uma rosa desfolhada.


Cecília Meireles

Epigrama número 1




Pousa sobre esses espetáculos infatigáveis
uma sonora ou silenciosa canção:
flor do espírito, desinteressada e efêmera,

Por ela, os homens te conhecerão:
por ela, os tempos versáteis saberão
que o mundo ficou mais belo, ainda que inutilmente,
quando por ele andou teu coração.

Cecília Meireles

Epigrama número 2






És precária e veloz, Felicidade.
Custas a vir, e, quando vens, não te demoras.
Foste tu que ensinaste aos homens que havia tempo,
e, para te medir, se inventaram as horas.

Felicidade, és coisa estranha e dolorosa.
Fizeste para sempre a vida ficar triste:
porque um dia se vê que as horas todas passam,
e um tempo, despovoado e profundo, persiste.

Cecília Meireles

Epigrama N° 3




Mutilados jardins e primaveras abolidas
abriram seus miraculosos ramos
no cristal em que pousa a minha mão.

(Prodigioso perfume!)

Recompuseram-se tempos, formas, cores, vidas ...

Ah! mundo vegetal, nós, humanos, choramos
só da incerteza da ressurreição.

Cecília Meireles

EPIGRAMA 4


EPIGRAMA 4

O choro vem perto dos olhos
para que a dor transborde e caia.
O choro vem quase chorando
como a onda que chora na praia.

Descem dos céus ordens augustas
e o mar chama a onda para o centro.
O choro foge sem vestígios,
mas levando náufragos dentro.


Cecília Meireles

EPIGRAMA Nº 5




Gosto de gota d'água que se equilibra
na folha rasa, tremendo ao vento.
Todo o universo, no oceano do ar, secreto vibra:
e ela resiste, no isolamento.
Seu cristal simples reprime a forma, no instante incerto:
pronto a cair, pronto a ficar — límpido e exato.
E a folha é um pequeno deserto
para a imensidade do ato.

Cecília Meireles

EPIGRAMA Nº 6




Nestas pedras caiu, certa noite, uma lágrima.
O vento que a secou deve estar voando noutros países,
o luar que a estremeceu tem olhos brancos de cegueira,
— esteve sobre ela, mas não viu seu esplendor.
Só, com a morte do tempo, os pensamento que a choraram
verão, junto ao universo, como foram infelizes,
que, uma lágrima foi, naquela noite a vida inteira,
— tudo quanto era dar, — a tudo que era opor.


Cecília Meireles

Acredito que...

“... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."

Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"