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terça-feira, 9 de novembro de 2010
Armadiras da mentilha
‘Minha vida é um rio claro.
Nunca estive tão tranqüilo.
Pois que abram meu sigilo
bancal e fiscário!’
— Ariscos e involuntários,
neologismos faíscam
no político que mente.
Eu também costumo urdi-los
ao mentir abertamente:
‘Escancarem a verdade!
Abram, pois, meu coração,
que nada encontrarão
senão perdade e bondão!’
Jorge Emil
De 'Pequeno arsenal' (2004)
O resignado
Corri com tanta revolta
que tombei exausto no lugar exato
donde não saí, dando voltas
idiotas à minha volta.
No afã de ser preciso,
fiz todas, todas as emendas.
Mas perfeita era a versão primeira,
agora extraviada.
Vulcânicos, irrompem os tiques
de nossos pais e dos mais
impensáveis avós, pipocam em nós
e convém não coçar.
Dor e culpa me dão prumo.
Premido por mãos ancestrais,
queira ou não, meu sumo
exala seu cheiro cristão.
Jorge Emil
(Poema inédito)
Me perdoo por me trair
Oco em mais de uma ocasião,
me deixei tragar pela areia, movediço.
Depois, a exaustão de emergir e emergir
com a sede dos renascidos. Não guardei forças
para julgar-me e punir-me. Por isso
fiquei forte para buscar solo firme.
Jorge Emil
(Poema inédito)
O dia múltiplo
Dia galopante e parado,
dia passado três dias antes,
brilhante, ofuscado oásis,
deserto desejado, completo
dia-quase. Tumulto e feriado.
Hoje foi escancarado:
todo o dia estive oculto.
É dia de gandaia e pausa
e aplauso, mas o dia me vaia.
O dia é um presídio libertário;
de aniversário e suicídio
é feito o dia.
Jorge Emil
De 'O dia múltiplo' (2000)
Na última tentativa
saiu aos gritos mandando o mundo calar o bico.
Mas só o ouviram uns quatro ou cinco
e ele viu que o tomariam por um excêntrico,
um bêbado, e se ririam de tanto ridículo.
Abdicou do ‘restrito círculo de amigos’,
microcosmo macroestrídulo.
Às vezes não fica nem mesmo consigo
pra ouvir o vácuo naquele cubículo.
Jorge Emil
(Poema inédito)
Apagão
Quando a nuvem ultrapreta
toldou o céu em definitivo,
quando a última lâmpada
conformou-se à agonia
e as ocupações — exibicionistas
quase todas — não puderam
prosseguir ou ser vistas,
para onde, para o que nos voltamos?
Não para dentro! que ninguém queria
um escuro ainda mais denso.
Fomos nos agarrando uns aos outros
até formar-se uma assembleia, uma algazarra,
votos incompreensíveis instituindo
o Dia Internacional da Noite.
Jorge Emil
(Poema inédito)
Caça ao tesouro
Comum. Plebeu.
Um metro e
oitenta e um.
Podre de pobre.
Sempre deveu —
por isso, cobra:
acesso às cifras
e à cor do cobre!
Grita e se dobra.
E sofre e sofre.
Senha e cifra,
o sofrimento
obra, fabrica
a chave que abre
o cofre da cripta.
Jorge Emil
(Poema inédito)
Transferência
O ônibus lotado
é uma alegria intermediária.
Maior prazer
será descer e pagar
— sem poder —
tantas altíssimas contas
debaixo de um sol imoral!
A praga que me rogaram
tem sabor de fruta fresca.
E amorosamente
espero a febre, o assalto.
Fui agraciado com a leitura de um mau livro
da grossura de uma árvore
caindo sobre mim.
Ileso, pus o poema
pra sofrer em meu lugar.
Jorge Emil
De 'Pequeno arsenal' (2004)
Cortina
‘O ritmo frenético da metrópole’,
chavão! e salvação de milhões.
Pequenos lugares calmos
tiram as armas da alma.
No ‘corre-corre desumano
do assombroso caos urbano’,
turva-se o horizonte
propenso à contemplação
de nosso imenso desterro.
Estresses são estímulos,
dissímulos do verdadeiro
(e descansado) desespero.
Jorge Emil
De 'Pequeno arsenal' (2004)
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Acredito que...
“... E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente.
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"
Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros.
Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram.
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre."
Excerto de 'De noite'
- Miguel Sousa Tavares
em “Não te deixarei morrer David Crockett"








